Práticas de descarte de refugo em uma plantation escravista

O caso da fazenda do Colégio dos jesuítas de Campos dos Goytacazes

Autores

  • Luís Cláudio P. Symanski
  • Flávio dos Santos Gomes
  • Isabela Cristina Suguimatsu

Palavras-chave:

senzalas, século XIX, análise distribucional, descarte de refugo

Resumo

Este artigo tem por propósito caracterizar e discutir as práticas de descarte de refugo dos grupos escravizados que ocuparam o Colégio ou Fazenda dos Jesuítas de Campo dos Goytacazes (RJ), um estabelecimento que tinha por principal atividade produtiva o cultivo da cana-de-açúcar. Escavações arqueológicas em quatro contextos de deposição relacionados à ocupação dos cativos e à ocupação da casa grande revelaram as similaridades e diferenças nas formas de se lidar com o refugo cotidiano entre esses dois grupos antagônicos. Essas formas de descarte dizem respeito tanto à manutenção quanto à modificação de práticas de descarte tradicionais, de origem africana. Os cativos, ao mesmo tempo em que aderiram a modificações nessas práticas em decorrência da imposição de um ideário higienista pela camada senhorial, foram aptos a manter formas mais tradicionais de lidar com os seus resíduos. Deste modo, as práticas de descarte de refugo consistiram em uma das diversas táticas que esse grupo empregou para manter uma cultura diferenciada daquela da casa grande e, assim, desafiar as normas sociais que lhe eram impostas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

AMANTINO, M. 2008. Relações sociais entre negros e índios nas fazendas inacianas: Rio de Janeiro, século XVIII. Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP, São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008, Cd-Rom.

ANNALES DU MUSEE DU CONGO. 1907. Notes Analytiques sur les Collections Ethnographiques du Musée du Congo, Les Industries Indigènes, La Céramique, fascicule I, tome II, Bruxelas.

BARRET, J. 2001. Agency, the duality of the structure, and the problem of the archaeological record. In: HODDER, I. (Ed.). Archaeological Theory Today. Cambridge, Polity Press, pp.141-164.

CORBIN, A. 1987. Saberes e Odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX. São Paulo, Companhia das Letras.

CURTIN, P. D. 1969. The Atlantic Slave Trade: a Census. Winsconsin, The University of Wisconsin Press.

DECERTEAU, M. 1984. The Practice of Everyday Life. Berkley, University of California Press.

DEETZ, J. 1977. In small things forgotten: an archaeology of early American life. New York, Anchor Books, Doubleday.

FARIA, S. 1998. A Colônia em Movimento: Fortuna e Família no Cotidiano Colonial. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

FERGUSON, J. 1992. Uncommon Ground: Archaeology and early African-America. Washington and London: Smithsonian Institution Press.

FERREIRA, L. M. s./d. O solar do colégio e as políticas culturais: a preservação deste patrimônio e a sua ressignificação. Manuscrito não publicado, 14 pags.

FOUCAULT, M. 1995. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal.

GIFFORD-GONZALEZ, D. 2014. Constructing community through refuse disposal. African Archaeological Review, 31 (2):339-382.

GOSDEN, C. 1999. Anthropology and Archaeology: a changing relationship. London, New York, Routledge.

GRAHAM, R. 1979. Escravidão Reforma e Imperialismo. São Paulo, Perspectiva.

GUGLIELMO, M. G. 2011. As múltiplas facetas do vassalo “mais rico e poderoso do Brasil”: Joaquim Vicente dos Reis e sua atuação em Campos dos Goytacazes (1781-1813). Dissertação de Mestrado. Niterói, Universidade Federal Fluminense.

HEATH, B. J. BENNETT, A. 2000. The little Spots allow'd them: The archaeological Study of African-American Yards. Historical Archaeology, 34 (1):38-55.

HODDER, L. ORTON, C. 1976. Spatial Analysis in Archaeology. Cambridge, Cambridge University Press.

KARASCH, M. 2000. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro. São Paulo, Companhia das Letras.

LAMEGO, A. 1934. A Planície do Solar e da Senzala. Rio de Janeiro, Livraria Católica.

LARA, S. H. 1988. Campos da Violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

LAVRADIO, M. 1842. Relatório do Marques de Lavradio, Vice Rei do Rio de Janeiro, entregando o governo a Luiz de Vasconcellos e Souza, que o sucedeu no Vice-reinado”. Revista do Instituto Histórico Brasileiro, tomo IV.

LIMA, T. A. 1996. Humores e Odores: Ordem Corporal e Ordem Social no Rio de Janeiro, Século XIX. História, Ciências, Saúde, 2 (3):46-98.

LIMA, T. A. et al. 1989. Aplicação da Formula South a Sítios Históricos do Século XIX. Dédalo, São Paulo, 27: 83-97.

MCCALL, J. C. 1999. Structure, agency, and the locus of the social: why poststructural theory is good for archaeology. In: ROBB, J. E. (Ed.). Material Symbols: Culture and Economy in Pre-History. Carbondale, Southern Illinois University, pp. 16-20.

ORTNER, S. 2006. Anthropology and social theory: culture, power, and the acting subject. Durham, Duke University Press.

POSNANSKI, M. 2013. Digging through twentieth-century rubbish at Hani, Ghana. Historical Archaeology 47 (2): 64-75.

REIS, M. M. C. 1997 [1785]. Manuscritos de Manuel Martins do Couto Reis, 1785. Rio de Janeiro, APERJ.

SAINT-HILLAIRE, A. 1941. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional.

SCHIFFER, M. 1972. Archaeological Context and Systemic Context. American Antiquity, 37 (2):156-165.

SLENES, R. 2011 [1999]. Na Senzala uma Flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. São Paulo, Editora Nova fronteira.

SOARES, M. S. 2009. A remissão do cativeiro: a dádiva da alforria e o governo dos escravos nos Campos de Goitacases, c.1750- c.1830. Rio de Janeiro, Apicuri.

SOUTH, S. 1972. Evolution and Horizon as Revealed in Ceramic Analysis in Historical Archaeology. The Conference on Historical Site Archaeology Papers, Institute of Archaeology and Anthropology. Columbia, University South Carolina, 6:71-116.

SOUTH, S. 1977. Method and Theory in Historical Archaeology. New York, Academic Press.

SOUZA, M. A. T. 2007. Uma outra escravidão: a paisagem social no Engenho de São Joaquim. Vestígios. Revista Latino-americana de Arqueologia Histórica, 1:59-92.

SOUZA, M. A. T. 2010. Spaces of difference: An archaeology of slavery and slave life in a 19th Century Brazilian Plantation. Tese de Doutorado. Syracuse, Syracuse University.

SOUZA, M. A. T. 2011. A vida escrava portas adentro: Uma incursão às senzalas do Engenho de São Joaquim, Goiás, século XIX. Maracanan, 7:83-109.

SOUZA, M. A. T. SYMANSKI, L. C. 1996. Análise distribucional intra-sítio em Arqueologia histórica: algumas aplicações. Revista de Arqueologia, Rio de Janeiro, 9:25-42.

SYMANSKI, L. C. 2001. Exposição e isolamento: práticas de descarte de refugo e mudanças de visão de mundo em um ambiente rural - o sítio Fazenda Camurugi (BA). Revista de Divulgação Científica, Goiânia, 4:113-138.

SYMANSKI, L. C. 2012. The Place of Strategy and the Spaces of Tactics: structures, artifacts and power relations on sugar plantations of West Brazil. Historical Archaeology, 46:124-148.

SYMANSKI, L. C. SOUZA, M. A. 2001. A Arqueologia Histórica: Relações Sociais e Construção de Identidades na Região do Rio Manso, Séculos XVIII e XIX. In: FRAGA, L. (Coord.). Projeto de Levantamento e Resgate do Patrimônio Histórico-Cultural da Região da UHE Manso – MT: relatório final de atividades. Goiânia, Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia/Universidade Católica de Goiás, 406 p.

SYMANSKI, L. C. ZANETTINI, 2010. Encontros culturais e etnogênese: o caso das comunidades afrobrasileiras do Vale do Guaporé. Vestígios. Revista latino-americana de arqueologia histórica, v. 4, p. 89-124, 2010.

SUGUIMATSU, I. C. 2012. Cultura material da senzala do Colégio dos Jesuítas: processos de formação do registro arqueológico em uma fazenda açucareira em Campos dos Goytacazes (RJ), século XIX. Monografia de Graduação. Curitiba, Universidade Federal do Paraná.

WHEATON, T. R. GARROW, P. H. 1985. Acculturation and the archaeological record in the Carolina Low-Country. In: SINGLETON, T. (Ed.). The Archaeology of Slavery and Plantation Life. New York, Academic Press, pp. 239-59.

ZERON, C. R. M. R. 2011. Linha de fé: a Companhia de Jesus e a Escravidão no processo de Formação da Sociedade Colonial (Brasil, séculos XVI e XVII). São Paulo, Edusp.

Downloads

Publicado

2015-06-30

Como Citar

P. SYMANSKI, L. C. .; DOS SANTOS GOMES, F. .; SUGUIMATSU, I. C. . Práticas de descarte de refugo em uma plantation escravista: O caso da fazenda do Colégio dos jesuítas de Campos dos Goytacazes. Revista de Arqueologia, [S. l.], v. 28, n. 1, p. 93–122, 2015. Disponível em: https://revista.sabnet.org/ojs/index.php/sab/article/view/418. Acesso em: 19 ago. 2022.

Edição

Seção

Artigo