A tecnologia do ebó

arqueologia de materiais orgânicos em contextos afro-religiosos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.24885/sab.v34i3.919

Palavras-chave:

materiais orgânicos, ebó, afronatureza

Resumo

Este artigo é o resultado de experiências com materiais orgânicos enquanto potências capazes de transformar o estático em movimento através da interação litúrgica entre corpos e a afronatureza. A partir da intersecção produtiva da minha iniciação/sacerdócio no Candomblé ao longo de minha existência, e na última década enquanto intelectual contribuinte da Arqueologia de Religiões Negras no Brasil, o ebó é analisado como uma tecnologia africana salvaguardada no interior dos Candomblés. Para tanto, o texto é iniciado com uma situação etnográfica, seguida de ocorrências arqueológicas registradas em dois Relatórios de Levantamento de Impacto ao Patrimônio Arqueológico na Bahia para refletir sobre o descarte do ebó em paisagens sagradas a partir da perspectiva afro-religiosa. Continua, com o processo histórico de deslocamento transatlântico de mercadorias orgânicas para fundamentar a liturgia das religiões de matriz africana a partir do século XVIII na Bahia, concluindo com o entendimento sobre a tecnologia do ebó enquanto instrumental físico e energético para a circulação do axé entre corpos biológicos.

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Publicado

2021-09-30

Como Citar

NOVAES, L. de C. N. A tecnologia do ebó: arqueologia de materiais orgânicos em contextos afro-religiosos. Revista de Arqueologia, [S. l.], v. 34, n. 3, p. 283–306, 2021. DOI: 10.24885/sab.v34i3.919. Disponível em: https://revista.sabnet.org/ojs/index.php/sab/article/view/919. Acesso em: 7 ago. 2022.