Uma arqueologia do não-contato: povos indígenas isolados e a materialidade arqueológica das matas e plantas na Amazônia

Autores

DOI:

https://doi.org/10.24885/sab.v35i3.975

Palavras-chave:

Arqueologia amazônica, Povos indígenas isolados, Arqueologia do tempo presente, Indigenismo

Resumo

A partir da institucionalização da política do não-contato pela FUNAI na década de 1980, há uma demanda pelo desenvolvimento de métodos de monitoramento dos povos indígenas isolados, buscando respeitar sua recusa ao contato. Neste cenário, se entrelaçam a arqueologia e o indigenismo. O monitoramento tem por base a análise dos vestígios deixados nas florestas: acampamentos abandonados, caminhos antigos ou recentes, áreas de manejo florestal, armadilhas de pesca e outras marcas gravadas nas árvores, que indicam a presença humana. Se a análise dos vestígios dos povos isolados se conforma como uma arqueologia do tempo presente, então a efetivação da política oficial do isolamento criou uma prática de “arqueologia do não-contato”. Este artigo busca sistematizar uma parte do conhecimento acumulado nas últimas décadas por indigenistas, e integrá-lo à prática arqueológica, a partir da análise de ecofatos que derivam do manejo e do uso de plantas, expressos principalmente em feições antrópicas na mata.

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Biografia do Autor

Daniel Rocha Cangussu Alves, Fundação Nacional do Índio

Indigenista da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), mestre em Gestão de Áreas Protegidas na Amazônia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (MPGAP/INPA)

Laura Pereira Furquim, Universidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia

Arqueóloga; doutoranda no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Pesquisadora do Laboratório de
Arqueologia dos Trópicos (Arqueotrop-MAE/USP) e do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena

Wlliam Perez, Fundação Nacional do Índio

Indigenista da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Se dedica ao estudo e elaboração de metodologias voltadas à localização e monitoramento de povos indígenas isolados na Amazônia

Karen Gomes Shiratori, Universidade de São Paulo. Departamento de Antropologia

Antropóloga, pós-doutoranda do Departamento de Antropologia da USP.  Pesquisadora do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA-USP) e da Unidade Mista de Pesquisa «Patrimoines locaux, environnement & globalisation» (PALOC-IRD).

Luíza Machado, Conselho Indigenista Missionário

Agente indigenista do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), mestranda em Gestão de Áreas Protegidas na Amazônia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (MPGAP/INPA);

Ana Carla Bruno, Universidade Federal do Amazonas. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Antropóloga/linguista, pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e professora do programa pós graduação em Antropologia Social da UFAM.

Eduardo Góes Neves, Universidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia

Arqueólogo, professor titular do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, coordenador do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos (Arquetrop/MAE/USP)

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Publicado

2022-09-30

Como Citar

ALVES, D. R. C.; FURQUIM, L. P.; PEREZ, W.; SHIRATORI, K. G.; MACHADO, L.; BRUNO, A. C.; NEVES, E. G. . Uma arqueologia do não-contato: povos indígenas isolados e a materialidade arqueológica das matas e plantas na Amazônia. Revista de Arqueologia, [S. l.], v. 35, n. 3, p. 137–162, 2022. DOI: 10.24885/sab.v35i3.975. Disponível em: https://revista.sabnet.org/ojs/index.php/sab/article/view/975. Acesso em: 3 dez. 2022.

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